FUTEBOL - O anúncio oficial da lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 deveria ser o ápice da meritocracia esportiva, o momento em que o suor de um ciclo inteiro se transforma em passaporte para o maior palco do planeta. Em vez disso, transformou-se em uma crônica de cartas marcadas. Horas antes do técnico italiano sentar-se em frente aos microfones no Rio de Janeiro, o perfil de Neymar no Instagram já havia sido cirurgicamente atualizado em inglês: "@santosfc & Brazil".
A mensagem subliminar nas redes sociais não foi apenas um "spoiler" para os fãs; foi um atestado de arrogância que escancara quem manda, de fato, nos bastidores da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O Teatro das Cartas Marcadas
O torcedor brasileiro foi feito de bobo. Enquanto o país debatia se um atleta em claro declínio físico e técnico merecia uma vaga após dois anos e sete meses de ausência da Seleção, o staff do jogador já tratava a convocação como fato consumado — internacionalizando a biografia para preparar o terreno do marketing global.
Essa postura joga no lixo o discurso de renovação e de "critério técnico" que tanto se cobrou da comissão técnica. Forçaram Carlo Ancelotti a dobrar os joelhos. O treinador, que construiu sua carreira vitoriosa gerindo grandes astros na Europa com pulso firme, estreou sua convocação para Copas com o Brasil engolindo um jogador por pura imposição comercial, por decreto de patrocinadores e pelo peso de um nome que, hoje, habita muito mais o imaginário do que a realidade das quatro linhas.
A Fantasia dos Números: Um Camisa 10 de 15 Jogos
Aos 34 anos e vestindo a camisa do Santos, a narrativa de que Neymar "voltou a ser o menino da Vila pronto para o Hexa" esbarra na frieza dos fatos. Em todo o ano de 2026, o atacante entrou em campo apenas 15 vezes.
Como justificar a inclusão de um atleta que passou os últimos anos tratando de uma grave ruptura de ligamento no joelho esquerdo, que jogou pouquíssimo e cuja rotina atual é baseada em uma cartilha estrita de preservação para o corpo não quebrar?
Enquanto jovens promissores e atletas que sangraram nas Eliminatórias disputando palmo a palmo o futebol europeu e sul-americano de alta intensidade ficam assistindo de casa, a Seleção Brasileira opta por carregar um "atleta de vidro". Convocou-se o CNPJ, não o jogador. Convocou-se a grife de 79 gols no passado, ignorando o presente de um atacante que atua em um ritmo substancialmente inferior ao que o Marrocos, a Escócia ou qualquer potência europeia exigirá na fase final da Copa.
O Privilégio Acima do Escudo
A biografia alterada antes do tempo é o reflexo perfeito do "Neymarcentrismo" que impede o Brasil de evoluir desde 2014. Mostra que, para ele e para quem o cerca, a Seleção é um anexo de sua marca pessoal, e não o contrário.
Se a Seleção Brasileira entrar em campo nos Estados Unidos precisando de intensidade, recomposição e doação física de 100% durante os 90 minutos, Ancelotti olhará para o banco e verá um jogador de 15 partidas no ano, que manda no próprio calendário e dita quando pode ou não jogar para não se lesionar.
O Brasil vai para a Copa do Mundo de 2026 com o peso da história nas costas, mas com um vício antigo na bagagem: a insistência em trocar o merecimento pelo privilégio. Se o Hexa vier, será apesar das velhas muletas de sempre, e não por causa delas. O teatro de ontem no Instagram provou que a Seleção, infelizmente, continua sendo o quintal de alguns poucos privilegiados.

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