A política, em sua essência, é a arte da construção coletiva e da permanência institucional. Poucas figuras brasileiras personificaram esse ideal com tanta clareza intelectual quanto Fernando Henrique Cardoso. Por isso, ao recebermos as notícias sobre o agravamento do quadro de Alzheimer do ex-presidente — que culminou em sua interdição judicial e na tutela de seu filho, Paulo Henrique —, não podemos evitar um sentimento de profunda melancolia. Aos 95 anos, o homem que desenhou os contornos da estabilidade econômica moderna enfrenta o silêncio imposto por uma das doenças mais cruéis da condição humana.
Como cientistas políticos, estudamos o poder em suas diversas facetas, mas raramente paramos para refletir sobre a transitoriedade da consciência daqueles que o exerceram. Ver FHC — um intelectual cuja trajetória foi definida pela lucidez, pela análise crítica e pelo domínio da palavra — despojado da memória de sua própria obra, é um golpe na nossa noção de relevância histórica. O fato de ele não mais recordar que presidiu a República por dois mandatos não apaga a magnitude de sua contribuição, mas nos lembra, com severidade, da fragilidade intrínseca à existência.
A biografia de Fernando Henrique não se resume ao cargo de presidente. Antes e depois dele, houve o sociólogo, o acadêmico rigoroso e o reformador institucional. Seu governo (1995-2002) foi um divisor de águas: ao consolidar a estabilidade monetária com o Plano Real, ele não apenas combateu a hiperinflação, mas restaurou a dignidade do cidadão brasileiro diante da moeda e do mercado. Suas reformas — embora, como todo ato político, tenham sido alvos de legítimas divergências — estruturaram o Estado brasileiro para os desafios da globalização e da modernização administrativa.
A interdição legal é, hoje, um procedimento técnico necessário para salvaguardar sua vida e seu patrimônio. Contudo, simbolicamente, ela encerra um ciclo de vigor que marcou a redemocratização do país. É um momento em que a sociedade brasileira, independentemente de suas inclinações partidárias, deve exercitar a empatia. A perda da memória de um estadista é uma forma de "perda em vida" que nos força a confrontar o fim de uma era.
Se FHC já não pode acessar, em seu âmago, as lembranças dos palácios, dos discursos e das negociações que moldaram o Brasil, cabe a nós, seus contemporâneos e estudiosos, a função de guardiões de sua memória. O papel da história é justamente este: ser o repositório externo onde as conquistas e os erros são depositados, permitindo que a coletividade mantenha viva a herança de quem ajudou a construir a nação.
A solidariedade dos Brasileiros à família Cardoso é, portanto, a solidariedade daqueles que reconhecem no sofrimento privado de um homem público um capítulo doloroso da nossa própria história política. Prestes a completar 95 anos, FHC deixa de ser o ator que interpreta a história para se tornar, definitivamente, o objeto dela. Que sua trajetória continue sendo estudada e respeitada pela sua complexidade, enquanto ele, agora resguardado pelos seus entes queridos, encontra o descanso que a vida política, tão intensa e exigente, nunca lhe permitiu plenamente.

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